Um dos debates mais acalorados da atualidade diz respeito ao papel do trabalho na sociedade. O questionamento maior é a respeito das concepções formuladas por Marx : o proletariado permanece como a classe de vanguarda no processo de transformação social?.
Há um vasto repertório de definições sobre o que é trabalho, as relações do homem com a natureza e as relações sociais de produção. Os próprios economistas clássicos (Adam Smith e David Ricardo) já haviam chegado à conclusão de que o valor de uma mercadoria, tema fundamental para a economia, era determinado pelo trabalho necessário à sua produção.
Coube a Marx, porém, o mérito histórico de desvendar um dos principais mistérios da economia, ao tratar da diferença entre o trabalho e a força de trabalho. Esta última é uma mercadoria especial, a única que, ao ser consumida, gera valor.
A base da economia capitalista se sustenta nessa relação, onde o operário troca sua mercadoria, a força de trabalho, pela mercadoria do patrão, o dinheiro. Nestas condições, o operário é livre para vender sua força de trabalho para o patrão que melhor lhe aprouver.
Mas a força de trabalho nem sempre foi mercadoria e o trabalho nem sempre foi assalariado. No escravismo e no feudalismo, por exemplo, não existia a figura do salário. Só no capitalismo o trabalho humano é assalariado, relação que dá origem à produção de riquezas e acumulação de capital.
Ocorre que com as três revoluções industriais e o grande avanço no processo produtivo, a crise do socialismo e do estado do bem-estar social, tudo associado com a hegemonia da globalização neoliberal, levaram alguns pensadores a proclamar o fim da centralidade do trabalho.
Diversar correntes teóricas (escola de Frankfurt e de Budapeste, pós-modernistas, etc) passaram a dizer, como André Gorz, que o "trabalho organizado socialmente será extinto", que a sociedade do trabalho será substituída pela sociedade do conhecimento.
Nestas condições, segundo esses autores, o proletariado perde a condição de vanguarda e na sociedade pós-industrial os novos movimentos sociais ocupam o seu lugar (movimentos em defesa do meio ambiente, feministas, direitos humanos, paz, eocnomia solidária etc).
Com isso, nega-se também o papel de vanguarda do partido e se rebaixa o papel de organizações clássicas dos trabalhadores, dentre elas os sindicatos, que hoje representariam apenas uma minoria privilegiada detentora de contrato formal de trabalho.
Todas essas teses se inscrevem no acervo de tentativas que, ao longo dos últimos tempos, procuram descaracterizar o pensamento de Marx, dar uma sobrevida ao capitalismo e retirar dos trabalhadores não apenas o seu papel político transformador como sua ferramenta principal de luta.
O fantástico desenvolvimento científico e tecnológico aumenta bastante a produtividade, permite aos proprietários dos meios de produção produzir cada vez mais com menos trabalhadores e construir sua riqueza a partir de uso mais intensivo de máquinas mais avançadas e técnicas de gestão atualizadas.
Estudo mais aprofundado dessa matéria, em si mesma bastante complexa, mostra que as alterações no perfil do trabalhador, com as inovações tecnológicas, tornam o proletariado mais heterogêneo, menos concentrado, com maior rotatividade, o que, certamente, cria dificuldades adicionais para a sua organização e o desenvolvimento da consciência de classe.
A multiplicação de novas organizações, outro fenômeno contemporâneo, não pode nublar o papel de uma organização superior, capaz de liderar a revolução e a luta pelo poder político (partido). É sobre essa base que deve desenvolver e atualizar o marxismo.
Enquanto persistir a propriedade privada dos meios de produção e relações de produção baseadas no trabalho assalariado, o trabalho será o elemento básico da sociedade humana, o proletariado a força social mais avançada e o partido o instrumento histórico necessário para edificar uma nova sociedade.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
domingo, 8 de janeiro de 2012
André Gorz e o "fim" do trabalho assalariado
Neoliberalismo e globalização associados às mudanças na organização do trabalho (passagem do fordismo para o toyotismo) e o desemprego daí decorrentes levaram alguns autores, como André Gorz, a sugerir que "o trabalho organizado socialmente será extinto".
Autor do polêmico "Adeus ao Proletariado", Gorz avalia que a realidade atual, onde "cada vez menos pessoas produzem cada vez mais riquezas", é o prenúncio do fim do trabalho assalariado e da produção fundada no valor-de-troca.
Com o suposto fim do trabalho assalariado, e consequentemente também do salário, André Gorz propõe uma renda básica mínima para todos - e a transição para um outro tipo de sociedade, não a sociedade do trabalho, mas a sociedade do conhecimento, da cultura.
Para ele, nessa nova "economia imaterial", o capital humano (riqueza de ideias, criatividade, capacidade de aprendizagem, etc.) superaria a riqueza material. Nessa sociedade utópica do autor em tela, o trabalho seria residual, todos teriam tempo para fruir o melhor da vida espiritual.
Essa concepção, que no fundo prega o fim da centralidade do trabalho e do protagonismo político do proletariado na transformação social, tem mais influência do que imagina a nossa vã filosofia. Sociedade pós-industrial, pensamento pós-moderno, novos atores sociais, quem já não ouviu falar sobre isso?
Achar uma forma de driblar o capitalismo é empresa sempre fadada ao fracasso. Tais ideias e propostas são generosas, mas sucumbem diante da realidade. O próprio Gorz, por exemplo, achava que o Euro e a Europa unida seriam uma alternativa ao império americano e à oligarquia financeira. Deu no que deu!
A luta pela reafirmação da centralidade do trabalho e do protagonsimo dos trabalhadores para superar o capitalismo e edificar a nova sociedade socialista são tarefas essenciais da luta de ideias atual. E tema de uma aula no curso de formação do PCdoB de minha responsabilidade. Aceito ajuda!
Autor do polêmico "Adeus ao Proletariado", Gorz avalia que a realidade atual, onde "cada vez menos pessoas produzem cada vez mais riquezas", é o prenúncio do fim do trabalho assalariado e da produção fundada no valor-de-troca.
Com o suposto fim do trabalho assalariado, e consequentemente também do salário, André Gorz propõe uma renda básica mínima para todos - e a transição para um outro tipo de sociedade, não a sociedade do trabalho, mas a sociedade do conhecimento, da cultura.
Para ele, nessa nova "economia imaterial", o capital humano (riqueza de ideias, criatividade, capacidade de aprendizagem, etc.) superaria a riqueza material. Nessa sociedade utópica do autor em tela, o trabalho seria residual, todos teriam tempo para fruir o melhor da vida espiritual.
Essa concepção, que no fundo prega o fim da centralidade do trabalho e do protagonismo político do proletariado na transformação social, tem mais influência do que imagina a nossa vã filosofia. Sociedade pós-industrial, pensamento pós-moderno, novos atores sociais, quem já não ouviu falar sobre isso?
Achar uma forma de driblar o capitalismo é empresa sempre fadada ao fracasso. Tais ideias e propostas são generosas, mas sucumbem diante da realidade. O próprio Gorz, por exemplo, achava que o Euro e a Europa unida seriam uma alternativa ao império americano e à oligarquia financeira. Deu no que deu!
A luta pela reafirmação da centralidade do trabalho e do protagonsimo dos trabalhadores para superar o capitalismo e edificar a nova sociedade socialista são tarefas essenciais da luta de ideias atual. E tema de uma aula no curso de formação do PCdoB de minha responsabilidade. Aceito ajuda!
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