sábado, 9 de janeiro de 2010

André Singer e o "lulismo"

Há trinta e quatro anos, convivi alguns meses com o hoje professor André Singer. Era o período da campanha eleitoral de 1976. Aos sábados e domingos, ele e um colega vinham até a Vila Brasilândia participar da campanha à vereança do Benedito Cintra.

Estudantes de Ciências Sociais da USP, para eles  a campanha tinha duas motivações básicas: contribuir com uma candidatura popular de oposição à ditadura e manter um contato direto com o povão da periferia.

Recentemente, troquei mensagens eletrônicas com o André Singer e, entre outros assuntos,  ele me disse que aquele período de militância com os moradores da Brasilândia foi uma das experiências mais ricas e marcantes de sua  vida.

 A recíproca também é verdadeira. Isolados no fundão da periferia, em pleno regime militar, compartilhar militância e debates políticos com o efervescente movimento estudantil da época, do qual o André era um quadro, contribuiu bastante para nossa formação.

Esse prolegômeno todo é apenas para meter a colher no debate proposto pelo Walter Sorrentino em seu blog, a respeito de um artigo do André - "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo".

Dois pontos, no artigo,  são relavantes: o deslocamento do subproletariado e, com ele, do  seu "conservadorismo popular",  para as bases do presidente Lula,  e a perda de centralidade dos estratos médios, até então considerado os principais formadores de opinião no país.

O André chega a essas conclusões a partir de diversas pesquisas e da análise comparativa dos votos de Lula em 2002 e 2006. Para ele, as pesquisas e as análises atestam essa alegada mudança de base social do Lula.

Com isso, sempre segundo as respeitáveis opiniões do autor do texto, há um embaralhamento na tradicional dicotomia entre esquerda e direita no país. A "classe média" de esquerda fica órfã e sem discurso, e a direita, em contrapartida, perde o subproletariado, seu eleitorado tradicional.

Pela lógica do estudo, publicado em revista da USP,   os partidos políticos, principalmente os de esquerda, passam a ter papel subalterno. No vácuo, surge " o lulismo", espécie de  representação política das massas, acima da luta de classes e das polarizações ideológicas.

Ocorre que na Venezuela, na Bolívia, no Equador, na Nicarágua e na própria Argentina,  para citar alguns exemplos na América Latina, as bases sociais dos governos progressistas se aproximam muito das bases do "lulismo".

Na Bolívia, os departamentos mais ricos pregam o separatismo, em Caracas a oposição ganhou as eleições e em Buenos Aires os Kirchners sempre perdem as eleições.  

Nesses países também  os partidos políticos têm peso relativamente menor do que o "Estado-provedor", mesmo considerando-se os tradicionais MAS, na Bolívia,  os sandinistas, na Nicarágua e o complexo peronismo na Argentina.

Emerge um problema de razoáveis proporções. As mudanças progressistas na América Latina sofrem forte  bombardeio da mídia direitista. O impacto é neutralizado no povão, beneficiários diretos  dos programas sociais.

Mas os tais estratos médios acham que pagam a conta, via impostos, desses benefícios que não os atinge. Além disso, são mais vulneráveis aos discursos moralistas  e/ou terroristas da mídia, que martelam sempre na tecla da corrupção ou do perigo de esses governos desembocarem em uma "ditadura" de esquerda.

O estilo conciliador do governo Lula e seu imenso prestígio nacional e internacional jogam água no chope da direita. Quanto mais batem no governo, mais ele cresce. Aqui há particularidades que merecem reflexão.

Ademais, há que se considerar que o governo Lula, para além de sua heterogênea base parlamentar, tem amplo apoio entre setores organizados que não se enquadram na categoria de subproletários.

Destaco o apoio das seis principais sindicais brasileiras, fato inédito na história política recente do país, e de boa parte do movimento estudantil, comunitário, de mulheres, negros etc. Isso sem falar em setores econômicos que vão bem, obrigado, com a atual política.

Os subproletarários podem ser considerados inorgânicos do ponto de vista da representação. Já os militantes dos partidos políticos de esquerda e das organizações sociais que apoiam o governo Lula integram, em boa parte, os estratos médios.

Essa gelatinosa "classe média",  sempre se divide: uma parte abastece a direita, outra flutua no centro, e um setor compõe, sem dúvida, um dos pilares chaves da esquerda. Sempre foi assim. Houve uma revolução no pensamento político desse estrato?

A resposta não é simples. A fratura entre o governo Lula e certos setores médios não foi ampla, geral e irrestrita. Podem ter migrado por várias razões e para várias direções.

Segmentos despolitizados, que formam opinião lendo Veja, Folha ou assistindo a Globo, podem ter recuado para a direita, tucanado. Outros, se deslocaram para o esquerdismo (PSOL, PSTU e adjacências).

É razoável trabalhar com um relativo realinhamento de bases sociais. Esse movimento  pode até ter atingido o ímpeto militante de frações de esquerda que se mantém alinhadas com o governo Lula.

Tudo somado, acho temerária a conclusão de que houve mudanças das próprias  placas tectônicas que sustentam o edifício político e ideológico da esquerda. Não chega a ser um tsunami político, mas é pouco dizer que se trata apenas de marola.

Não se deve esquecer que nunca antes na história deste país a esquerda conseguiu  chegar ao governo, mantê-lo na reeleição e prosseguir com grandes possibilidades para uma terceira vitória do ciclo progressista. A regra geral,recorde-se, era a derrota nas polarizações.

Para obter a maioria política e social, não se pode  creditar o fenômeno apenas  à chancela política do subproletariado. Incorporar essa massa de dezenas de milhões ao nosso projeto político terá sido  uma vitória estratégica para o nosso campo.

 Tudo isso, no entanto, precisa estar umbilicalmente ligado aos setores social e politicamente mais organizados. O grande desafio, talvez, seja recuperar parte dessas ovelhas desgarradas, sem novas perdas.

Não apenas com discursos, mas principalmente com um aprofundamento das mudanças progressistas que resgate as convicções libertárias da maioria dos brasileiros. São opiniões preliminares de um debate fecundo. Aceita-se de bom grado contraditas.

5 comentários:

  1. Geraldeli da Costa rofino9 de janeiro de 2010 18:06

    Prezado Camarada Nivaldo Santana,
    Acesso o blog pela primeira vez,ótimo o artigo problematizador e provocante. Também concordo com a sua avaliação, é forte colocar todos no mesmo patamar, ou mesmo imputar a nós militantes de esquerda, um discurso despolitizado e ou confuso sobre as trasnformações vivenciadas no Governo LULA. As mesmas são valorosas e presisarão sofrer um aprofudamento no projeto a ser apresentando ao povo brasileiro nas eleições de outubro próximo, pelas forças populares apoiadoras do Governo do Presidente Lula.
    Um forte abraço.
    Geraldeli

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  2. Luzardo Bins Cardoso10 de janeiro de 2010 21:42

    O artigo de Nivaldo Santana, analisando a obra de André Singer sobre as raízes do "lulismo" ( este termo que está muito em voga agora, desde os anos 80 do século XX ), leva-nos à reflexão de duas coisas importantes. Em primeiro lugar, o que é o "lulismo"?
    O "lulismo" não é marxismo-leninismo, não é científico, pois se trata de uma corrente popular democrática em torno do Presidente Luís Inácio da Silva, o Lula, uma corrente democrático-revolucionária que não se forma como teoria marxista revolucionária, científica. Ela contém aspectos do marxismo de João Amazonas, mas é principalmente socialista utópica. Em segundo lugar, o papel do subproletariado ou lumpemroletariado, grandes massas do povo vivendo na miserabilidade e sonhando com formas imperialistas burguesas neoliberais, alimentadas pela mídia privada capitalista, como ideais para cada indivíduo ou família. Está correto em dizer que a nossa vitória depende também destas massas sonhadoras e miseráveis, que o "lulismo", igual ao varguismo ou getulismo, atrai para si, mas que têm dificuldade em organizar-se para impulsionarem a transição ao socialismo. Este é um debate muito importante.

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  3. Olá Nivaldo, muito bom o teu artigo. Faz uma leitura provocante do artigo do Singer.
    Acredito, que a categoria 'sub-proletariado´ pode se prestar a confunsões. A verdade é que Lula ganhou um contigente da população que a esquerda tinha dificuldades de atingir, de interagir, e ele conseguiu esse feito político, o que ampliou a base social do governo e potancialmente da esquerda. São setores, camadas da população, com certa fluidez social, o que exige certo cuidado na sua definição, categorização... Bem é isso. É preciso estudar melhor para compreender esse novo fenômeno.

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  4. Camarada Nivaldo,
    Depois de recentemente ler o artigo do André Singer, cheguei a algumas reflexões parecidas ás suas nesse texto do blog. O trabalho do Singer parece simplificador demais e não considerar devidamente o peso numérico e a atividade militante dos estratos médios que continuam apoiando o governo Lula (quer mais ou menos criticamente, mas objetivamente apoiando). Nunca é demais lembrar que, no auge da crise do escândalo do 'mensalão', meados de 2005, foram setores da militância estudantil, sindical e popular que saíram às ruas para apoiar Lula, contra as manifestações numericamente inferiores chamadas pela ultra-esquerda a serviço da direita. Assim, a caracterização de 'bonapartismo' também parece um tanto forçada para aplicar ao presidente Lula.
    Apesar disso, o artigo do Singer ajuda a esclarecer algumas coisas neste período dos mandatos Lula.
    É um debate bom para ser instigado, por exemplo, dentro do Núcleo sobre Estado e Classes da Escola Nacional do Partido.

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