sábado, 26 de março de 2011

Mito do Desenvolvimento Econômico

Neste sábado eu participei de um seminário no Sindicato dos Metroviários de São Paulo. O tema era conjuntura e também compuseram a mesa o professor Plínio de Arruda Sampaio Jr. e Dirceu Travesso (Conlutas). O representante da CUT não apareceu.

A nova direção do sindicato construiu um debate com maioria, na mesa e no auditório, de opositores "de esquerda" ao governo Dilma. O debate não teve presença significativa de trabalhadores e as ideias e posições defendidas fazem parte de um cardápio muito conhecido, já de domínio público.

Um ponto interessante é que o professor Plínio de Arruda Sampaio (o filho), em sua intervenção final, citou o livro "O Mito do Desenvolvimento Econômico", de Celso Furtado, para contestar a minha defesa de um projeto nacional de desenvolvimento com valorização do trabalho.

Celso Furtado, na foto com Lula, foi, sem dúvida, um brasileiro ilustre. Integrou a direção da Cepal, orientou o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, dirigiu o BNDE e a Sudene, foi embaixador, ministro da Cultura e publicou extensa obra versando fundamentalmente sobre desenvolvimento e subdesenvolvimento.

O pensamento teórico de Celso Furtado demonstra que os países da periferia do capitalismo seguem um itinerário próprio que perpetua seu subdesenvolvimento e as desigualdades sociais. Nesses países, como o Brasil, minorias ricas tem padrão de vida semelhante aos ricos dos países centrais do capitalismo devido à grande concentração de renda e riqueza.

A lógica econômica, para os países pobres, aponta para processo interno concentrador de renda e externo dependente, relações assimétricas centro-periferia e mercado interno frágil e desigual. Por isso, há uma industrialização tardia e mesmo quando há crescimento econômico o país não se liberta das amarras do subdesenvolvimento.

Quando Celso Furtado escreveu "O Mito do Desenvolvimento Econômico", o Brasil do regime militar vivia um período conhecido como milagre econômico. O crescimento do PIB, de fato, era altíssimo: 1970: 10,4%; 1971: 11,3%; 1972:14% e 1974: 9%.


Provavelmente a obra (não li o livro, só a resenha) queria demarcar com os economistas da ditadura, que promoviam um crescimento econômico acelerado apoiado em bases frágeis: grande endividamente externo e brutal concentração de renda. Crescimento não sustentável, para usar uma expressão da moda.

Com a crise da dívida e do petróleo, o Brasil mergulhou em uma profunda crise, que durou as décadas de 80 e 90 do século passado e os primeiros anos da presente década. Foram vinte e cinco anos de estagnação econômica e degradação social.

A partir de 2003, com a posse de Lula à presidência da República, o Brasil inicia um novo ciclo político e o desenvolvimento do país volta à ordem do dia. Um dos pontos fulcrais do programa do PCdoB, para citar um exemplo emblemático, é a luta por um novo projeto nacional de desenvolvimento.

As bases sobre as quais devem repousar esse desenvolvimento são de qualidade nova, não guardam relação com o período do milagre econômico ou de outros períodos de crescimento econômico elevado. É um equívoco teórico e político renegar a luta pelo desenvolvimento com base em experiências passadas.

O adjetivo novo que antecede a expressão projeto nacional de desenvolvimento tem esse mérito, distinguir a proposta atual das anteriores. A defesa que aqui se faz tem como premissa a luta pelo progresso social, pela ampliação da democracia, pela afirmação da soberania nacional e pela integração solidária com a América Latina e os países do hemisfério sul.

Aumentar as taxas de investimento, fortalecer o mercado interno, aplicar uma vigorosa política de valorização da força de trabalho e de distribuição de renda, priorizar a política industrial e a produção com alto conteúdo tecnológico são alguns dos fundamentos desse projeto.

Nessa debate de ideias e de rumos para o nosso país,  é uma certa mistificação apoiar-se em Celso Furtado para justificar posturas sectárias e isolacionistas. Esse grande patriota, em seus 84 anos de vida, sempre esteve ao lado do progresso do Brasil e do seu povo. Certamente não estaria engrossando o coro sectário dos ditos oposicionsitas "de esquerda".

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